Chamaram o Cerrado de savana pobre por tempo demais. É um dos maiores erros de leitura da história natural brasileira.
A floresta que cresce para baixo
Quem olha o Cerrado de cima vê árvores tortas, baixas, de casca grossa, espaçadas. Parece pouco. Mas boa parte da biomassa do bioma está debaixo da terra: raízes profundas, xilopódios, sistemas subterrâneos que descem metros em busca de água.
Por isso o Cerrado é chamado de floresta invertida. E por isso ele funciona como uma imensa caixa d'água: é ali que nascem as bacias do Araguaia-Tocantins, do São Francisco e do Paraná. Cerrado degradado significa rio com menos água, inclusive muito longe de Goiás.
O fogo faz parte. O fogo errado, não.
O Cerrado coevoluiu com o fogo. Muitas espécies dependem dele: sementes que só germinam depois do calor, cascas grossas que protegem o tecido vivo, plantas como a canela-de-ema que queimam por fora e voltam a florescer.
Só que existe diferença entre o fogo natural, de baixa intensidade e ciclo longo, e a queimada de conversão: aquela que abre área para pasto e monocultura, arrasa e não deixa voltar. O primeiro é parte do sistema. O segundo é o que está acabando com ele.
O Cerrado já perdeu cerca de metade da sua cobertura original. E recebe uma fração da atenção pública que a Amazônia recebe.
Biodiversidade em números
- É a savana mais biodiversa do mundo, com mais de 11 mil espécies de plantas catalogadas.
- Cerca de 4 em cada 10 dessas espécies são endêmicas: não existem em nenhum outro lugar do planeta.
- Abriga espécies-símbolo como o lobo-guará, o tamanduá-bandeira e o tatu-canastra.
- É reconhecido internacionalmente como um hotspot de biodiversidade: enorme riqueza somada a enorme ameaça.
Por que a coleção se chama Flores do Cerrado
Poderíamos ter escolhido flores mais famosas, de leitura mais imediata, mais fáceis de vender. Escolhemos ipê, flamboyant, pequi, canela-de-ema e chuveirinho porque cada uma carrega uma lição sobre resistência que nos parece verdadeira sobre as mulheres com quem trabalhamos.
Florescer na seca. Brilhar sem pedir licença. Guardar profundidade. Crescer devagar e sobreviver ao fogo. Encantar em silêncio.
Levar essas flores para um bordado é uma forma de mantê-las em circulação: na conversa, no imaginário, no cotidiano de quem carrega a peça. Não substitui política pública de conservação. Mas ninguém protege aquilo que não conhece, e o Cerrado ainda é, para muita gente, apenas a paisagem que se atravessa de carro.
O que fazemos na prática
Produção local em Goiás, cadeia curta, algodão orgânico, reaproveitamento de resíduo têxtil, embalagem sem plástico e edição limitada por escolha. São medidas modestas diante do tamanho do problema. E são as que estão efetivamente ao nosso alcance hoje.
Preferimos fazer o que cabe na nossa mão e dizer o tamanho real disso, a prometer o que não conseguimos entregar.